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Topic: O QUE PENSAM NISTO ???? EM LISBOA....
LISBOA


Restaurantes que a ASAE não conhece

Tal como nos filmes, ninguém viu nada de suspeito. Os comerciantes portugueses não conhecem, os taxistas nem desconfiam. Caracteres chineses nas janelas, cheiros intensos vindos do primeiro andar. Assim é o Martim Moniz, por isso ninguém relaciona estes sinais com um restaurante clandestino. "Moro aqui há anos, sou polícia e posso garantir que aqui não existe nada disso", diz um homem encostado ao balcão de uma taberna com cheiro a enchidos, ao mesmo tempo que esfrega a barriga. Uns metros adiante, basta apurar o olfacto para perceber que alguém cozinha. O prédio é simples e velho, como todos na Mouraria. São cinco da tarde e ouve-se barulho de loiça a bater nas mesas. Desconfiamos. Subimos. Bingo. Afinal, há aqui um restaurante clandestino.

Ao cimo das escadas há caracteres vermelhos colados numa parede branca, uma bandeira chinesa de papel e um prato com sardinhas. As portas do primeiro andar estão abertas, cheira e soa a restaurante. A dona da casa aparece e o sinal é mexer na barriga, fazer gestos ou dizer que se quer comer. A chinesa gesticula e ri-se. Ri-se compulsivamente. E repete por tudo e por nada "oui, oui". A sala de refeições tem quatro mesas. A senhora, de avental, indica-nos uma e traz a ementa, em português e com erros ortográficos. Sempre a rir-se.

Não há coragem para provar língua de pato com sal e pimento, mas arriscamos a carne de porco com sabor a peixe. Sem molho, sabe a carne. Com molho, sabe a caldeirada. As tentativas de comer com pauzinhos saem frustradas e pedimos talheres. A senhora parece escandalizada por comermos de garfo e faca. "Aloz, colhel", diz, obrigando-nos a usá-la.

Uma Panasonic passa um filme hollywoodesco com legendas em chinês. Chineses de calças vincadas e All-Star bebem Super Bock e oferecem o que comem como se fôssemos uma grande família. À saída pagamos 12 euros. Estão lá os caracteres vermelhos, mas o prato de sardinhas desapareceu. Seria esse o sabor a peixe na carne? Ficou a dúvida.

Oito da noite. Numa rua perto do Centro Comercial da Mouraria basta estar atento às pistas e aos números de telemóvel junto às campainhas para descobrir duas casas de família chinesas que servem uns petiscos típicos a quem quiser entrar. Batemos a uma porta, chamamos, batemos outra vez. Só depois de entrarmos ? e de vários moradores concordarem com a nossa presença ?, é que nos encaminham para uma sala que noutra vida foi um quarto.

Uma mulher de chinelos tenta uma tradução do cardápio e oferece Dim Sun, bolas de carne e legumes, que tinha cozinhado para o próprio jantar. Servem-nos sopa com tofu, alho francês e pedaços de camarão. Depois vem a massa com gambas e chá frio chinês, que sabe a jasmim e a líchias (e que, por acaso, tinha passado de prazo no ano passado). Pagamos 14 euros. Não se iluda. Estes espaços secretos não são uma pechincha. Mas a boa comida típica, que não é adaptada aos ocidentais, e o prazer de nos sentirmos em casa merecem o preço.

Na sala ao lado, chefe de família e amigos jogam dominó. Revezam-se para ir buscar as amêijoas e os Dim Sun já cozinhados pelas mulheres da casa. Vamos saindo e encontramos um quarto com três beliches onde toda a família dorme. É preciso rentabilizar o espaço para as refeições. Um toque noutra campainha e encontramos o segundo restaurante da rua. São dez da noite. A cozinha está fechada. Agora "comer só amanhã".

Queremos experimentar outros sabores e seguimos o aroma a caril. Mercearia asiática sim, mercearia asiática não, pedimos informações e colorimos as perguntas com desejos de provar comida indiana ou bengali pura. À quarta tentativa, um indiano de cabelo amestrado a gel aponta para uma rua silenciosa. Um restaurante improvisado numa mistura de garagem e cave surge num beco escuro. Não há letreiros nem horários. Terceiro clandestino.

O chão está imundo Alguns homens reúnem-se à volta de uma mesa de snooker improvisada. Rovin, o dono, não tem menus e faz sugestões. A casa de banho não tem papel para limpar as mãos mas Rovin apressa-se a levar um guardanapo, assim como de cada vez que uma gota da carne com caril escorre do magnífico pão indiano. Rovin finge fazer contas de cabeça. Pagamos dez euros e seguimos viagem em busca de comida do Paquistão. Muzammil é o nosso guia e conta-nos que os paquistaneses não cobram dinheiro. Pedem que rezem por eles enquanto cozinham para nós. Muzammil está feliz, encontrou alguém a quem exibir os seus dotes culinários e, durante a madrugada, mostra-nos no Intendente casas de família onde há paquistaneses que cozinham para os fregueses. "Têm é de trazer os ingredientes." É esta a única imposição. Andamos quilómetros para trás e para a frente até percebermos que de facto sem ingredientes nada feito.

Duas da manhã Ainda há tempo de aceitar a sugestão de um cabo-verdiano e ir até São Bento procurar cachupa. Todos sabem onde é. Duas da manhã e na rua vazia apenas um restaurante fechado. Três da manhã e dá-se a mu
Nov 3
2:13 AM

Posted by Seca Carlos

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